Caminhos do Ensino
- Diego Carlos Zanella
- 4 de fev.
- 5 min de leitura
05.09.2025
Discurso de abertura da série da atividades chamadas "Caminhos do Ensino".
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É com grande alegria e profundo entusiasmo que damos início a este encontro, que marca a abertura das atividades do semestre [2025/2] em nosso Programa de Pós-Graduação em Ensino de Humanidades e Linguagens. Hoje é, de fato, um dia especial: celebramos a vitalidade de uma comunidade que pesquisa, ensina, escreve, debate e transforma; e celebramos, também, a largada do nosso Curso de Doutorado em Ensino de Humanidades e Linguagens, um marco que consolida a maturidade do PPGEHL e amplia sua missão pública.
Este encontro tem algo de ritual e algo de reinvenção. É ritual porque reafirma valores que nos trouxeram até aqui: o compromisso com a formação humana, o rigor intelectual aliado à ética e a convicção de que o conhecimento tem função social. E é reinvenção porque toda abertura pede um recomeço: uma aposta nas perguntas que ainda não fizemos, nos vínculos que ainda não criamos e nas pontes que ainda não atravessamos.
Gostaria de começar olhando para trás, mas só o suficiente para lembrar quem somos. O nosso Programa iniciou suas atividades em agosto de 2016. Desde então, percorremos um caminho exigente e fecundo, que foi dando corpo a uma identidade própria na área de Ensino. A notícia de 2016 ecoa até hoje: princípio de um projeto que cresceria em número de pesquisas, em pessoas e em laços com a cidade e com a região.
Ao longo desses anos, passaram por aqui muitas pessoas, docentes, discentes, técnico-administrativos, que deixaram sua marca. Aos egressos e egressas, nosso reconhecimento: vocês ampliaram o alcance do Programa nas redes escolares, nas universidades, nos movimentos sociais, em grupos culturais e outros espaços por onde circulam. Não raro, transformaram dissertações em livros, compartilharam resultados com a comunidade e mostraram, na prática, que ciência se faz com linguagem acessível e compromisso social.
Também nos tornamos mais internacionais e mais “porosos” à cidade. Os Seminários Internacionais em Ensino de Humanidades e Linguagens trouxeram pesquisadoras e pesquisadores do Brasil e do exterior; e a integração à Cátedra UNESCO UniTwin Cidade que Educa e Transforma tem nos ajudado a aproximar universidade, políticas públicas e territórios urbanos. Em outras palavras: continuamos a aprender com a cidade, e não apenas na cidade.
Seria irreal não falar das dificuldades. Cruzamos uma pandemia que reconfigurou o cotidiano da pesquisa e do ensino: do “remoto emergencial” às plataformas que nunca dormem, da fadiga das telas às notificações sem fim, entre câmeras desligadas, prazos comprimidos e orçamentos apertados. O período também escancarou desigualdades de acesso digital, nos jogou na economia da atenção e trouxe para dentro da universidade conflitos de privacidade de dados, desinformação e o uso, nem sempre responsável, de inteligência artificial no trabalho acadêmico. Se chegamos até aqui, foi porque nossa comunidade soube combinar cuidado e persistência com letramento digital, colaboração em rede e uma dose de paciência com as instabilidades do Wi-Fi, sempre lembrando que tecnologia é meio, não fim.
Também amadurecemos com as mudanças do Sistema Nacional de Pós-Graduação. E, sim, aprendemos a conviver com a rotina da Plataforma Sucupira, esse calendário que não dorme e lembra, sem pudor, que dados, projetos, bancas e publicações precisam estar onde devem, no tempo certo. É por ali que registramos a vida do Programa e alimentamos a engrenagem pública de avaliação: a CAPES coleta e organiza as informações do Sistema Nacional de Pós-Graduação pela Sucupira, e nós sentimos cada lembrete deixado na caixa de e-mail. Ou eu deveria dizer, deixado pelo coordenador no grupo do WhatsApp? Se há cobranças, há também um recado claro: a produção intelectual importa, e, no novo ciclo, o foco recai cada vez mais sobre artigos efetivamente publicados, e não apenas sobre a “etiqueta” do periódico. Cabe a nós transformar planilhas em sentido público: que números e relatórios se traduzam em qualidade formativa, inserção social e impacto real, como espera o próprio sistema de avaliação que nos acompanha ao longo de nossa existência como Programa.
E agora, o anúncio que nos reúne com brilho nos olhos: o Doutorado do PPGEHL. Ele não caiu do céu: é fruto de trajetória, de trabalho coletivo e de uma visão de futuro. Sua aprovação pela CAPES no final de 2024 reconhece a consistência da nossa proposta e nos desafia a dar o próximo passo, formar doutoras e doutores capazes de dialogar com as escolas, com as políticas educacionais, com as linguagens contemporâneas e com as urgências do nosso tempo.
O que esperamos desse novo ciclo?
Primeiro, profundidade teórica com abertura interdisciplinar. Humanidades e linguagens são casas grandes: nelas cabem a filosofia e a sociologia da educação, os estudos de linguagem, as artes, a história, a ética, a educação inclusiva, a tecnologia educacional, as pedagogias, e tantas outras frentes que já pulsam em nossas linhas e grupos. O Mestrado já o faz, e o Doutorado nos convida a ir além, a consolidar escolas de pensamento, núcleos, redes e projetos de longa duração.
Segundo, pertinência social com rigor metodológico. Queremos projetos que nasçam de problemas reais, da sala de aula à cidade, e que devolvam algo às comunidades envolvidas. Em tempos de discursos fáceis e soluções apressadas, ofereçamos método, dados bem coletados, análise robusta e escrita clara. É isso que dá legitimidade pública ao conhecimento.
Terceiro, formação integral e cuidado com as pessoas. Ninguém faz pesquisa sozinho. As teses e dissertações são travessias partilhadas, que pedem escuta, acompanhamento e ambientes acadêmicos mais hospitaleiros. Nosso compromisso institucional é cultivar tempos de orientação que apoiem os percursos sem sufocar as autonomias; e fortalecer ações de acolhimento e saúde mental para que o estudo seja também experiência de bem-estar.
Quarto, integração internacional e impacto territorial. A parceria com redes como a Cátedra UNESCO precisa seguir se desdobrando em projetos, mobilidades, publicações e políticas públicas, sem perder de vista nossa responsabilidade local, com as escolas, secretarias, conselhos e coletivos que constroem a educação em Santa Maria e na região.
Quinto, ética e integridade como eixo. A vida acadêmica se sustenta na honestidade intelectual, na responsabilidade e no respeito: do planejamento das disciplinas ao uso de tecnologias, das relações de autoria à gestão de dados e resultados. Comprometemo-nos com transparência, reconhecimento justo de contribuições, combate ao plágio e à manipulação, clareza sobre possíveis conflitos de interesse e civilidade no dissenso. Que cada procedimento, científico, pedagógico e administrativo, traduza esse compromisso, com rigor, coerência e atenção às diferenças.
Já estou concluindo.
“Caminhos do Ensino”, o nome dado a este encontro, não é apenas uma aula inaugural; é um convite a caminhar juntos. Caminho supõe método, mas também companhia, escuta e abertura ao imprevisto. Ao longo do semestre, queremos percorrer veredas e encruzilhadas do ensinar e do aprender, experimentando rotas, revendo mapas e registrando aquilo que a marcha nos ensina, sobre a escola, sobre a pesquisa e sobre nós mesmos.
Para este primeiro encontro, recebemos o professor Ronai Rocha, autor de “Caminhos e equívocos da escola brasileira”, obra recente que provoca a pensar a escola em tempos de hiper conexão, atenção rarefeita e disputas de sentido, e, justamente por isso, recoloca a centralidade da formação e da linguagem na vida escolar. Prof. Ronai, a sua presença nos ajuda a inaugurar o espírito da série que queremos com “caminhos do ensino”: começar caminhando com quem nos ajuda a enxergar a paisagem e a nomear os obstáculos do percurso.


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